sexta-feira, 4 de junho de 2010

Artigo sobre «A Situação da Mulher no Tempo de Paulo em Corinto: símbolos e conflitos»

É um artigo extenso, mas para quem tiver tempo, curiosidade ou interesse, ajuda a entender a posição da mulher na sociedade no tempo de Paulo.

Alguns estudiosos relatam que, no mundo judaico, pelo menos nas famílias judaicas fiéis à Lei, no mundo romano e no mundo grego, havia a marginalização de mulheres. A exclusão social e a reclusão doméstica eram comuns. No entanto, há outros que reconhecem a participação delas na vida pública. Vejamos o que pesquisadores de cada corrente têm a nos informar sobre isso. Corinto era uma cidade que englobava essas diversas mulheres com suas realidades peculiares. Esboçaremos em breves palavras a vida de cada uma dessas mulheres (judias, romanas e gregas) para analisarmos a influência que o comportamento delas causava na vida das cristãs.

Segundo Jeremias, a mulher judia não participava da vida pública no Oriente, assim também acontecia no judaísmo do tempo de Jesus nas famílias judaicas fiéis à Lei. Para sair de casa, a mulher tinha de esconder o rosto com um manto que se dividia em duas partes, uma cobria-lhe a cabeça, a outra cobria a fronte e caía até o queixo, de forma que o rosto da mulher não podia ser reconhecido.

A mulher que saísse de casa sem o véu que lhe ocultava o rosto, conversasse na rua ou ficasse do lado de fora da sua casa, dava ao marido a oportunidade de se separar dela sem precisar pagar a quantia que pertencia à esposa em caso de divórcio. Algumas mulheres não se descobriam sequer dentro de casa. O cabelo era uma coisa tão sagrada que nem as traves da casa os viam. Somente no dia do casamento a esposa aparecia de cabeça descoberta, caso não fosse virgem ou fosse viúva. Preferia-se que a mulher não saísse de casa, em particular a moça antes de seu casamento.

Yose ben Yohanan, um dos mais antigos escribas, sentenciava: “Não converse muito com uma mulher”. As regras de normas morais proibiam o homem de encontrar-se sozinho com uma mulher. Caso a mulher fosse casada, outro homem não podia sequer olhar para ela, muito menos cumprimentá-la, ainda mais se o homem fosse aluno de escriba.

Para Fílon), de Alexandria, as mulheres moças deviam ficar confinadas nos quartos das mulheres e evitar o olhar dos homens, mesmo de parentes próximos, e as mulheres casadas deviam ter como limite a porta do pátio. Para ele, toda a vida pública era feita para homens (negócios, conselhos, tribunais, procissões festivas, reuniões).

Em relação à vida privada, a situação da mulher correspondia à exclusão da vida pública. Em razão disso, a maioria das mulheres passava a maior parte do tempo envolvida com afazeres que se restringiam ao espaço privado. Até os doze anos, a autoridade do pai era soberana sobre ela. Ela não tinha o direito de possuir nada. Todo rendimento do trabalho dela era dado ao seu pai. A aceitação ou recusa de um pedido de casamento pertencia exclusivamente ao seu pai e até os 12 anos e meio uma jovem não tinha o direito de recusar o casamento decidido por ele. O pai podia também, até os 12 anos, vendê-la como escrava.

Acima dos 12 anos e meio, a filha tinha o direito de decidir seu noivado sem o consentimento paterno, mas o pagamento feito pelo noivo pertencia ao pai dela. Casando-se, a mulher passava da submissão ao pai para a submissão ao esposo.

Na vida conjugal, a mulher podia ser mantida, exigindo a aplicação desse direito perante o tribunal, com alimento, vestuário, habitação, medicamentos, sepultura, velório com dois tocadores de flauta (no mínimo) uma carpideira e um discurso fúnebre.

Os deveres da mulher no matrimónio eram atender às necessidades do lar: moer, cozinhar, lavar, amamentar, fazer a cama do marido, fiar e tecer a lã (para compensar sua manutenção), levar e preparar a bacia para o marido, lavar-lhe o rosto, as mãos e os pés. Como o pai dela, o marido tinha direito à renda do trabalho dela, bem como podia anular os seus votos.

A mulher devia total obediência ao marido (JEREMIAS, 1983). Nessa época a poligamia por parte do homem era permitida. Por isso a mulher devia tolerar concubinas ao seu lado. O direito de divórcio era só do homem, salvo os casos em que o homem fosse colector de excrementos e curtidor de peles, atacado de lepra, de pólipos ou a obrigasse a compromissos abusivos à sua dignidade. Somente nesses casos a mulher podia requerer o divórcio diante do tribunal, reivindicando o pagamento da quantia garantida no contrato matrimonial, caso fosse mandada embora ou seu marido morresse

A falta de filhos era uma desonra. Sendo mãe, a mulher era valorizada, pois, desse modo, dava ao marido o mais precioso presente: filhos. Quando não se podia ter filhos, pensava-se que isso podia ser castigo divino. Mesmo viúva, a mulher continuava ligada ao marido. Nesse caso, a viúva tinha de esperar que irmãos do falecido contraíssem com ela o casamento levirático ou lhe manifestassem a recusa, sem a qual ela não podia tornar a se casar. Essas eram as condições que reflectiam as prescrições da legislação religiosa à época. Do ponto de vista religioso, sobretudo da Torá, a mulher não era igual ao homem e devia sujeitar-se às proibições da Torá e a todo rigor da legislação civil e penal.

Notamos, porém, que mesmo em meio a tanta rigidez, isto é, mesmo onde se conservava rigorosamente o uso, havia excepções como, por exemplo, a rainha Alexandra que de 76 a 67 a.C. governou o povo com prudência e energia; a irmã de Antígono que, por volta de 40 a 37 a.C., defendeu a fortaleza de Hircânia contra as tropas de Herodes, o grande; Salomé, que dançou para os visitantes de Herodes Antipas (Mc 6,22; Mt 14,6); além de inúmeras de mulheres dos meios populares que não tinham condições de levar uma vida totalmente retirada como as da classe alta, uma vez que tinham de trabalhar como comerciantes, muitas vezes para ajudarem seus maridos.

Mulheres também trabalhavam para sustento próprio. Tabita era uma mulher entre muitas que trabalhavam de forma independente com outras mulheres na tecelagem de lãs. Tabita foi uma mulher que compartilhou com outras mulheres o fruto de seu trabalho, entre elas, viúvas que estavam com ela. Ao invés de comprar tudo, confeccionava túnicas e mantos para elas.

Meeks informa-nos sobre situações de mulheres nas cidades greco-romanas que elas eram atuantes no comércio e no artesanato. Assim como Lídia e Tabita, havia também Eumaquia, que ganhou dinheiro fabricando tijolos. Havia também mulheres que patrocinavam associações não só femininas (de sacerdotisas) como também masculinas. Mâmia foi uma entre aquelas que contribuíram. Ela construiu o templo do Gênio de Augusto.

MacMullen conta-nos que, ao longo da Itália e nas províncias de língua grega, “mulheres são mencionadas em moedas e inscrições como benfeitoras e funcionárias graduadas das cidades e ainda como merecedoras de honras municipais”.

Pomeroy esclarece que as mulheres protectoras e doadoras das associações não eram, em sua maioria, pertencentes à aristocracia, mas, ao contrário, eram como Eumaquia, isto é, tinham ganhado dinheiro por meio do comércio.

Meeks nos informa ainda que, nos períodos helenista e romano, as mulheres eram atraídas a cultos sincréticos, “surgidos com a difusão das religiões orientais e egípcia no seio das cidades mediterrâneas”.

As mulheres romanas eram praticamente excluídas dos papéis activos na vida religiosa comunitária, mas havia exceções. Um certo número de papéis sacerdotais e de sacrifícios, considerados restritos para homens, estava nas mãos de mulheres como, por exemplo, as Vestais, sacerdotisas públicas. No mundo romano, as diferenças sociais eram integradas à vida quotidiana das pessoas. As mulheres eram englobadas nesse modo de integração. As mulheres livres e proprietárias de escravos preocupavam-se com a multiplicação de seus servos, que eram reproduzidos pelas mulheres escravas. A separação entre livres e escravos era nítida. Às escravas cabiam duas funções: proporcionar prazer ao seu senhor e reproduzir (procriar). Tanto em Roma como na Grécia, o senhor era automaticamente dono dos bens dos escravos. Ele controlava até mesmo os nascimentos nas famílias de escravos. Em razão disso, proibia o casamento de seus escravos com os de outro senhor. Se uma mulher livre se unisse com um escravo sem o consentimento de seu senhor, ela também se tornava escrava.

Em Roma e no Oriente grego, havia uma nítida diferenciação entre pessoas honradas e as infames. Por causa da infâmia, as mulheres eram privadas do casamento legítimo e da transmissão cívica completa, que era hereditária. Isso também acontecia no mundo grego, embora com bem menos frequência. Ao cobrirem o corpo e a cabeça, traje de esposa legítima, as concubinas manifestavam a sua pertença a um cidadão.

As mulheres das camadas altas ou das camadas relativamente favorecidas

eram educadas para ignorar seu corpo a ponto de anular o seu prazer. A elas cabiam as funções de administrar bem a casa, procriar, educar os filhos, aceitar a infidelidade do marido com paciência até que ele se voltasse outra vez para ela. Porém, a resistência de algumas mulheres a esse modelo fez com que muitas delas confrontassem com nobres romanos e imperadores no I século, em um momento em que Augusto começava a admitir a liberdade de expressão.

No entanto, isso tomou uma proporção tal que Augusto passou a reprimir panfletos e a queimar livros. Mesmo assim, algumas pessoas tentaram passar das críticas verbais a atitudes práticas. Essas pessoas, porém, eram condenadas a anteciparem a execução com o suicídio. Nesse momento, mulheres são condenadas ao suicídio por causa de faltas pessoais ou por extensão da pena infligida ao marido. Entretanto, havia aquelas que decidiam não sobreviver, mesmo sem serem constrangidas a tal, em razão de terem apoiado a resistência do marido ao Império.

Muitas mulheres se suicidaram para não ter de dever sua vida a algum imperador (César, Augusto, Tibério) como, por exemplo, a mulher de Sejano; Paxeia, mulher de Pompónio Labéu; Sexta, mulher de Scauro; e Arria, a Antiga, que, para encorajar o marido condenado pelo imperador Cláudio, se feriu primeiro, dizendo ao esposo: “Vê, Peto, isto não dói”. Com as iniciativas dessas e de mulheres o sistema social vacilou, visto que elas mostraram sua coragem num mundo de perigo.

De acordo com Zaidman, na vida das mulheres [gregas], o biológico estava estreitamente relacionado e condicionado pelo social: a adolescência é entendida como preparação para o casamento e para a vida como esposa de um cidadão.

A sua função reprodutora determina a união matrimonial.Quando chega à idade que já não pode procriar, a mulher adquireum novo estatuto e espaça aos privilégios e às proibições que marcavama sua vida. A estas três idades da mulher grega correspondempráticas religiosas diferentes.

Zaidman esclarece que, no mundo grego, havia mulheres que possuíam a imagem tradicional daquela que administrava a casa, mas também havia mulheres que eram integradas no sacrifício, reuniam-se em assembleias ou exerciam sacerdócio e serviços em cultos femininos. A imagem de esposa perfeita aqui corresponde à da tecelã. Essa era uma atividade tradicional que a mulher exercia em casa. Era uma profissão admirada porque mantinha a mulher ocupada e na companhia de outras mulheres, servas ou outras mulheres da casa. Todas ficavam em volta do tear, das navetas e dos cestos de lãs. A esposa perfeita era a mulher trabalhadora.

A imagem de esposa casta e prolífica era valorizada, mas a sociedade não deixava de tolerar as celebrações a deuses em âmbito privado. As mulheres participavam de vários cultos. Alguns deles, como, por exemplo, o de Dionísio, representavam a inversão da ordem da cidade e da família, pois, segundo Zaidman, “esposas [...] esquecem os seus deveres e [...], para cúmulo do sacrilégio, despedaçam os próprios filhos no espaço selvagem da montanha”.

Em Atenas acontecia uma média de trinta festas anuais. Cada uma dessas festas durava cerca de dois ou três dias. Parte da população feminina participava activamente dessas festas, mas somente na festa anual das Pan-Ateneias é que presenciavam mulheres de todas as idades. Essa intervenção era determinada pela idade e pela condição social. Essa intervenção representava também pertença ao mundo político.

O véu como parte do vestuário feminino era sinónimo de status social e símbolo de honradez tanto no mundo greco-romano como no judaico.

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